A Desdolarização Implacável: Como o Mundo Está Aprendendo a Funcionar Sem o Dólar
Uma análise aprofundada sobre os riscos e oportunidades no atual ciclo de investimentos em Inteligência Artificial
Se você vive mercados financeiros, já sentiu uma sensação familiar: a euforia, o capital correndo atrás de qualquer pitch com a palavra "IA", e valorizações que brilham mais que resultados operacionais.
Alguns jornalistas e analistas já comparam esse ciclo à bolha das pontocom — e com razão. OpenAI, Anthropic e outros gigantes privados receberam ou atraíram somas que poucos imaginariam há cinco anos; chegou a um ponto em que a avaliação de startups de IA ultrapassa empresas industriais e de engenharia espacial de décadas de existência.
Em 2025, por exemplo, relatos indicaram que a OpenAI atingiu valuation na faixa dos US$ 500 bilhões após transações de ações de funcionários.
Fonte: Bloomberg
Mas há diferenças fundamentais entre 1999 e hoje: o jogo agora envolve empresas com balanços gigantescos, financiamento em dívidas nas praças de crédito e envolvimento direto de governos que veem a IA como corrida geopolítica.
O objetivo deste artigo é mapear com profundidade por que há uma bolha em andamento, de que forma ela pode estourar, quais são os riscos sistêmicos e — crucialmente — quem pode realmente ganhar quando a poeira baixar.
Na superfície, a bolha nasce da combinação clássica: narrativa (IA mudará tudo), fluxo massivo de capital e aversão a perguntar o preço real do valor.
Mas hoje há um elemento extra — e perigoso — que a torna potencialmente maior: dívida em escala industrial.
Nas últimas semanas e meses, grandes empresas de tecnologia — chamadas de "hyperscalers" — lançaram emissões de dívida e financiamentos gigantescos para expandir infraestrutura (datacenters, redes de energia, refrigeração, etc.).
Relatos recentes mostram vendas e pedidos de dívida na casa das dezenas de bilhões: uma emissão da Meta de cerca de US$ 30 bilhões (com um orderbook recorde de ~US$ 125 bilhões) e operações de financiamento ligadas a grandes datacenters da Oracle da ordem de US$ 18 bilhões.
Essas operações ilustram que o financiamento do boom vem cada vez mais via crédito em larga escala.
Fonte: Bloomberg
Analistas e bancos de investimento calculam que os investimentos necessários para a expansão de infraestrutura ligada à IA correrão na casa do trilhão: estimativas sólidas apontam para necessidade de captação de cerca de US$ 1,5 trilhão nos próximos anos apenas para sustentar a onda de datacenters e capacidade de computação.
Esse volume mudará o comportamento dos mercados de crédito — e não necessariamente para melhor.
Fonte: Yahoo Finanças
As análises de campo começam a mostrar um sinal vermelho: projetos-piloto e provas de conceito abundam, mas poucas iniciativas entregam retorno econômico claro.
Um estudo do MIT divulgado em 2025 apontou que uma elevada proporção de pilotos de IA generativa não alcança ROI significativo — números citados rondam 90%+ de projetos que falham em produzir impacto mensurável na produtividade ou receita no curto/médio prazo.
Isso cria um desalinhamento entre gastos massivos e validação econômica.
Fonte: Fortune
Consequência direta: empresas que contraem dívida para construir capacidade de computação podem descobrir que a receita incremental é insuficiente para justificar o investimento — especialmente num cenário de juros mais altos e crescimento econômico moderado.
Num mercado onde quase todo mundo precisa do mesmo insumo (compute), quem domina a cadeia de suprimentos tem vantagens quase insuperáveis.
A Nvidia, fabricante de GPUs, consolidou uma posição dominante na oferta de hardware de aceleração de IA. Mesmo que numerosas startups e serviços desapareçam após uma correção, empresas que vendem a infraestrutura crítica (chips, interconexões, ferramentas essenciais) continuam a faturar. Em outras palavras: vendedores de infraestrutura sobrevivem melhor.
Fonte: Nasdaq
Observação: a liderança tecnológica pode ser contestada (Google, Meta e outras desenvolvem chips próprios), mas a dependência de ecossistemas, software e know-how torna a concorrência custosa e lenta.
Portanto, em qualquer cenário — expansão ordenada ou correção violenta — fornecedores de hardware e plataformas de baixo nível têm grande probabilidade de sair na frente.
Apresento três cenários possíveis, do menos ao mais danoso:
Valorações exageradas caem, empresas menores fecham ou são consolidadas, mas o sistema financeiro absorve as perdas sem colapso. Spreads sobem temporariamente, crédito fica mais seletivo, mas a economia real sofre efeitos moderados.
Emissões massivas de dívida (corp bonds, project finance) enfrentam menor demanda; spreads disparam; bancos e fundos com exposição elevada registram perdas; investimento corporativo recua. A contração do crédito freia capex em setores além da tecnologia, gerando desaceleração mais ampla.
Uma combinação de estresse nos mercados de crédito, perda de confiança em grandes emissores e uma recessão tecnológica acentuada cria uma crise sistêmica.
Fundos de crédito estruturado, segundas ordens em índices e alavancagem cruzada amplificam perdas. Esse cenário exigiria intervenção macroeconômica e poderia reduzir crescimento e emprego de forma material.
Os sinais de alerta que já aparecem (alto volume de emissões, baixa prova de ROI em muitos pilotos e valorações desconectadas de métricas operacionais) apontam que Cenário 1 e Cenário 2 são riscos reais; o Cenário 3 não é impossível se houver um gatilho — por exemplo, uma crise de confiança num emissor-chave ou uma rápida alta de juros que reprecifique o risco de crédito.
Fonte: Bloomberg
Apesar do alerta, IA não é moda passageira — é um conjunto de tecnologias com potencial transformador. O que muda é onde buscar oportunidades:
Fonte: Nasdaq
A avaliação final é nuanceada: existe claramente uma bolha em torno de expectativas e determinadas valuations; o endividamento massivo das grandes empresas e a falta de ROI generalizado em muitos pilotos aumentam o risco de correção — e essa correção pode afetar não só o mercado de tecnologia, mas o mercado de crédito mais amplo.
Entretanto, a IA como tecnologia é estrutural e continuará a transformar setores.
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Disclaimer: As informações apresentadas neste blog são de caráter educativo e não constituem aconselhamento financeiro personalizado. Consulte sempre um profissional qualificado antes de tomar decisões relacionadas aos seus investimentos ou planejamento financeiro.
Para entender como o boom da Inteligência Artificial está afetando a economia mundial e criando riscos sistêmicos, confira nossa análise completa na categoria de Macroeconomia Global.
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